domingo, março 18, 2007

A Graça de Maria das Graças

Segue abaixo mais uma brilhante colaboração do Amigo André Henrique de Arruda Luna.

No nome "Maria das Graças", o termo "das graças" significa "presente ou dom recebido de Deus". Maria das Graças (conhecida por "Graça") é uma pessoa que sempre desafiou os agouros de nossa época. Praticamente não foi amada. Nascida de um casal grosseiro e sem qualquer educação formal, não recebeu instrução ou preparação para a vida. Logo foi abandonada e não teve tempo para brincar, estudar ou ser criança. Percorrendo sua memória percebe que suas lembranças do trabalho são anteriores até mesmo às da sua existência. Mas, de alguma forma (só pode ter sido uma graça, uma dádiva), desenvolveu o desejo de dar certo, de evoluir. Como já não existe a "secretária doméstica" (a antiga "empregada" do lar) dedicada em tempo integral (com a qual a família criava vínculos emocionais), ela encontrou sustento trabalhando como "diarista" (fazendo limpeza, passando roupa ou lavando louça) sete, eu disse sete, dias por semana. Todos os dias acordava por volta das 04:00h para chegar ao trabalho pontualmente às 06:50h e só sair por volta das 19:00h pra retornar pra casa às 21:00h com a sensação de dever cumprido. Foi assim toda sua vida, sem pausa em domingos, feriados, natal, páscoa, carnaval... Mas este era o dom da Graça, a disposição incansável, a capacidade produtiva. Apesar dessa rotina, era uma mulher feliz. Jamais (e lá se vão uns 20 anos) a vi sem um sorriso cativante no rosto. Sentia-se digna por sobreviver às suas custas, através de trabalho honrado, honesto. Sobrepujava todos os obstáculos de cabeça erguida e postura altiva. Mas a sociedade do consumo é também a sociedade da inveja. Sua humilde porém orgulhosa casinha de conjunto habitacional (obtida por meio de sorteio junto ao estado) foi invadida na segunda semana de março de 2007 por um vagabundo no sentido mais literal da palavra enquanto ela jantava, sozinha. Vendo que não havia nada de valor, mesmo diante da cooperação e total ausência de agressividade, resolveu tomar seu bem mais precioso, sua graça: cortou-lhe o braço direito, logo aquele que ela usava para trabalhar por ser destra! Talvez a ira do criminoso (alguém que sempre conviveu próximo à sua casa) fosse a percepção de que ela era diferente. Talvez ele quisesse tentar rebaixá-la tornando-a igual a ele, uma pessoa sem desejo, sem ânimo pra trabalhar, invejoso dos dons alheios, pobre de espírito e mau em seu mais profundo íntimo. Não, Graça não é assim. Não sei o que ocorrerá com ela pois não se pode aposentar ou mais trabalhar contudo tenho certeza que jamais se tornará um ser vil. Quanto tempo mais vamos permitir que as graças de nossas Graças, Aparecidas, Fátimas, das nossas Marias sejam extirpadas? Não há nenhuma graça neste mundo violento urbano...

André Luna, 31 anos, brasileiro, residente em Brasília/DF, casado, 3 filhos, gerente de projetos de tecnologia da informação.